Conforme o diretor de tecnologia, Jean Pierre Lessa e Santos Ferreira, a inovação aberta resolve uma contradição comum: empresas investem pesado em times internos, mas boa parte das ideias que mudam o mercado nasce do lado de fora. Ignorar essa fonte custa caro.
A contradição aparece no dia a dia. Uma equipe passa meses desenvolvendo um recurso que uma startup já oferece pronto, enquanto soluções criadas dentro de casa ficam paradas porque não servem ao produto principal. Nos dois casos, conhecimento valioso deixa de circular.
A inovação aberta propõe tratar essas fronteiras como porosas. Isso vale para empresas de tecnologia e, cada vez mais, para varejistas, bancos e indústrias que dependem de software para competir, e o movimento ganhou novo fôlego com a inteligência artificial.
De onde vem o conceito de inovação aberta
O termo foi popularizado pelo professor Henry Chesbrough, da Universidade da Califórnia em Berkeley, no livro Open Innovation. A ideia central é que nenhuma empresa concentra todo o talento relevante e, por isso, precisa combinar pesquisa interna com conhecimento externo.
O conceito tem duas direções. Na entrada, a empresa traz tecnologias, parceiros e ideias de fora para acelerar seus projetos. Na saída, ela licencia, compartilha ou transforma em negócio aquilo que desenvolveu, mas não pretende usar sozinha.
Essa segunda direção costuma ser esquecida. Uma ferramenta interna de precificação, por exemplo, pode interessar a parceiros comerciais e virar serviço. Tratar o que foi criado em casa como ativo, e não como custo encerrado, amplia o retorno do investimento em tecnologia.
Parceiros externos como extensão do time
Startups, universidades, fornecedores e até concorrentes podem funcionar como extensão da equipe. O ganho mais imediato é de velocidade: em vez de começar do zero, a empresa testa uma solução já validada e concentra o próprio time no que realmente a diferencia.

Jean Pierre Lessa e Santos Ferreira participou da criação de um marketplace, modelo que é em si uma forma de abertura: a plataforma passa a oferecer produtos de vendedores externos e amplia o catálogo sem estoque próprio. A lógica de abrir a estrutura para terceiros vale também para tecnologia.
A decisão entre desenvolver internamente ou buscar fora ganha outra camada nesse contexto. Além de construir ou comprar, surge a opção de coconstruir com um parceiro, dividindo risco e aprendizado. O critério continua o mesmo: o que é diferencial competitivo fica sob controle da empresa.
O que muda com a inteligência artificial?
A inteligência artificial acelerou a inovação aberta de forma visível. Modelos de linguagem com pesos abertos, bibliotecas de código livre e interfaces de programação oferecidas por grandes provedores de nuvem permitem que times pequenos criem protótipos que antes exigiriam equipes inteiras de pesquisa.
Por isso, Jean Pierre Lessa e Santos Ferreira avalia que a vantagem deixou de estar no acesso ao modelo e passou a estar na aplicação. Quando a tecnologia de base é compartilhada, vence quem conhece melhor o próprio problema, tem dados organizados e consegue colocar IA em produção.
Essa mudança também traz riscos novos. Usar componentes externos exige atenção a licenças, à proteção de dados de clientes e à dependência de fornecedores. Uma política clara sobre o que pode ser compartilhado evita que a abertura vire exposição.
O que separa parceria produtiva de vitrine?
Muitos programas de inovação aberta viram eventos de demonstração, com prêmios e fotos, mas poucos contratos. A diferença está em começar pelo problema: desafios concretos, com área responsável e orçamento reservado para o piloto, atraem parceiros mais sérios.
Outro fator é a velocidade interna. Uma startup não sobrevive a seis meses de aprovação jurídica e de segurança para um teste de oito semanas. Processos simplificados para pilotos de baixo risco mostram ao mercado que a empresa está pronta para colaborar de verdade.
Uma vez que o conhecimento circula mais rápido do que qualquer organização consegue reter, Jean Pierre Lessa e Santos Ferreira nota que a pergunta útil deixa de ser onde a ideia nasceu. Passa a ser quem tem capacidade de transformá-la em resultado, e essa capacidade se constrói dentro de casa.

