O médico radiologista Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues lembra que uma mamografia de rastreamento, com duas imagens de cada mama, resulta em uma dose efetiva de cerca de 0,4 milisievert, valor equivalente a algumas semanas da radiação natural a que todas as pessoas estão expostas no dia a dia. O número ajuda a dimensionar um receio comum e antigo entre as pacientes. Entender de onde vem a radiação e como ela é controlada permite avaliar o exame com mais segurança.
Radiação natural, uma exposição constante
A radiação não está presente apenas nos exames médicos. Todas as pessoas recebem diariamente doses vindas do solo, das rochas, do ar, dos alimentos e dos raios cósmicos. Em média, essa exposição natural soma alguns milisieverts por ano, com variações conforme a região e a altitude.
Viagens longas de avião, por exemplo, aumentam ligeiramente a exposição, porque em grandes altitudes há menos proteção da atmosfera. Comparada a essas fontes, a dose de uma mamografia é pequena e concentrada em uma única região do corpo, a mama. O restante do organismo recebe exposição praticamente nula durante o exame.
Como a mamografia se compara a outros exames
Entre os exames de imagem que usam radiação ionizante, a mamografia está entre os de menor dose. Uma tomografia de tórax, por exemplo, envolve dose muitas vezes maior. A radiografia de tórax comum tem dose menor que a mamografia, mas avalia estruturas diferentes e com outro nível de detalhe.
A tomossíntese, conhecida como mamografia 3D, tem dose semelhante ou um pouco maior que a da mamografia digital, diferença reduzida com o uso de imagens sintéticas. Segundo Vinicius Rodrigues, a escolha do exame considera sempre o equilíbrio entre a informação obtida e a radiação necessária para obtê-la.
O que mantém a dose baixa
A tecnologia digital contribuiu para reduzir a exposição. Os detectores atuais captam a imagem com mais eficiência que os antigos filmes, o que permite usar menos radiação. A compressão da mama também tem papel importante, porque diminui a espessura do tecido que os raios precisam atravessar.
O controle de qualidade completa o processo. No Brasil, as regras para serviços de radiodiagnóstico são definidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, que estabelece limites de dose e exige testes periódicos dos equipamentos realizados por físicos médicos. Aparelhos fora dos padrões precisam ser ajustados antes de voltar a operar. O Programa Nacional de Qualidade em Mamografia também avalia doses e imagens dos serviços participantes.
A idade influencia o risco
O tecido mamário é mais sensível à radiação em mulheres jovens, cujas células estão em fase de maior atividade. Com o passar dos anos e após a menopausa, essa sensibilidade diminui, enquanto o risco de câncer de mama aumenta.
Na avaliação de Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, a relação entre os dois fatores explica por que o rastreamento é recomendado a partir de determinada idade. Nas faixas etárias indicadas, o benefício de detectar tumores pequenos supera amplamente o risco teórico associado à radiação, inclusive ao longo de décadas de exames periódicos.
Exame no intervalo certo, sem excessos
O cuidado com a radiação, portanto, não está em evitar a mamografia, e sim em realizá-la com indicação adequada. Repetir exames sem necessidade, antecipar o rastreamento em mulheres de risco habitual ou refazer imagens por falta de exames anteriores aumentam a exposição sem trazer benefício.
Levar mamografias antigas para comparação e manter o intervalo recomendado são medidas simples que evitam radiação desnecessária. Conforme explica Vinicius Rodrigues, a mamografia feita no momento certo, em serviço com controle de qualidade, é um exame seguro, e o receio da radiação não deve ser motivo para adiar a detecção precoce do câncer de mama.

