Paulo Roberto Gomes Fernandes elucida que momentos de grande visibilidade internacional, como a realização da Offshore Technology Conference (OTC) em Houston, sempre funcionaram como testes concretos da maturidade industrial de um país. Em 2013, a presença ampliada de empresas brasileiras no principal evento offshore do mundo revelava não apenas interesse comercial, mas também a necessidade de reafirmar a capacidade técnica nacional em um mercado cada vez mais competitivo e globalizado.
A OTC daquele ano ocorreu em um contexto de expectativa elevada em torno do pré-sal e da expansão da cadeia de petróleo e gás no Brasil. O aumento da participação brasileira na feira indicava disposição para dialogar com players internacionais, buscar parcerias e apresentar soluções desenvolvidas localmente. Ao mesmo tempo, evidenciava a pressão sobre a indústria nacional para responder a padrões técnicos, prazos e exigências cada vez mais rigorosos.
Conteúdo nacional como política industrial, não como barreira
Na leitura de Paulo Roberto Gomes Fernandes, a política de conteúdo nacional sempre esteve associada à ideia de fortalecimento estrutural da indústria brasileira, e não à criação de reservas artificiais de mercado. Ao exigir índices mínimos de participação local, o país buscava estimular investimento em engenharia, formação de mão de obra e desenvolvimento tecnológico, criando condições para que empresas nacionais competissem em pé de igualdade.
O desafio, contudo, não residia apenas na existência da política, mas na sua execução prática. Atender ao mercado de petróleo e gás exige capacidade de projetar, fabricar, operar, manter e evoluir sistemas complexos. Isso envolve desde a qualificação técnica até a disposição para inovar e romper métodos consolidados quando estes já não respondem às novas demandas.
Engenharia, inovação e o papel das empresas nacionais
Paulo Roberto Gomes Fernandes frisa que a indústria brasileira demonstrou, ao longo dos anos, competência para enfrentar desafios considerados extremos, como a exploração em águas profundas e ultraprofundas. Encontrar reservas a milhares de metros de profundidade foi apenas o primeiro passo. Extrair, transportar, armazenar e distribuir essa produção exigiu soluções inéditas, muitas delas desenvolvidas internamente.

Nesse processo, a inovação deixou de ser diferencial e passou a ser requisito básico. A busca por novos métodos construtivos, maior eficiência logística e melhores condições de segurança operacional tornou-se permanente. Empresas que investiram em engenharia aplicada e pesquisa prática conseguiram não apenas atender ao mercado interno, mas também alcançar reconhecimento internacional, inclusive por instituições técnicas independentes.
O fator humano e os limites do modelo atual
Outro ponto central destacado por Paulo Roberto Gomes Fernandes diz respeito ao papel das pessoas na cadeia de valor. O debate sobre falta de mão de obra qualificada ganhou força com a expansão do setor, mas, em muitos casos, mascarava problemas mais profundos relacionados à formação contínua, incentivo à criatividade e ambiente propício à inovação.
Mais do que ausência de talentos, havia limitação de estímulos para que engenheiros e técnicos ultrapassassem fronteiras conhecidas. Sem demanda clara por soluções inovadoras, muitos profissionais permaneciam restritos à repetição de modelos existentes. A política de conteúdo nacional, nesse sentido, só alcança seu objetivo quando acompanhada de incentivos reais à evolução técnica e à experimentação responsável.
Equilíbrio entre abertura e fortalecimento interno
Para Paulo Roberto Gomes Fernandes, defender o conteúdo nacional não significa rejeitar a participação estrangeira, mas buscar equilíbrio entre abertura e fortalecimento interno. Setores estratégicos, como o de petróleo e gás, exigem políticas consistentes de longo prazo, capazes de combinar competitividade, segurança operacional e soberania tecnológica.
A experiência de 2013 reforça que o Brasil possui capacidade de criar, produzir e inovar, caso existam condições adequadas de incentivo, previsibilidade regulatória e compromisso com o desenvolvimento industrial. Em um mercado globalizado, preservar e aprimorar o conteúdo nacional é menos uma escolha ideológica e mais uma decisão estratégica para garantir relevância sustentável no cenário internacional.
Autor: Gigle Catabriga

